Oficinas culturais, sejam de música ou qualquer outra linguagem, sempre têm o argumento da "formação" como principal defesa. Acontece que, uma vez "instruídos", os alunos estão no meio do caminho. E depois? Oficinas também se transformaram em meio para que artistas "sem palco" ganhassem um pouco de dinheiro e, de quebra, conceito. Esse nunca foi muito o objetivo do rapper Zé Brown, da banda Faces do Subúrbio. Ele fez muita oficina (de break e de rimas) de forma voluntária, na brodagem, como se diz na gíria. E sempre se incomodou com a cobrança dos seus ex-alunos.
"Muitos chegavam pra mim e diziam, 'e aí, fiz aquela oficina de rima mas não consegui ainda fazer um show'". Dar sustentabilidade aos grupos que ajudou a formar foi sua maior intenção quando criou o projeto Zé Brown apresenta Talentos.
Os "talentos" do rap foram apresentados por Zé Brown em alguns shows, no Alto José do Pinho. Uma extensão desse projeto é o que acontece agora, com recursos do Funcultura.
O músico vai gravar uma coletânea com cinco grupos do hip hop, que ninguém provavelmente nunca ouviu, mas ele garante que merece atenção. "Vamos gravar com uma produção boa, fazer capa e cuidar da divulgação. Gravar discos não é mais difícil, mas para eles ainda é uma barreira", diz Zé Brown. Como um bom mentor e articulador dos seus "afilhados", o músico reuniu a maioria deles para uma apresentação ao Diario, no skate parque da Rua da Aurora. Primeiro espaço na mídia. A largada foi dada.
Somente MC Pooblay não compareceu para contar sua história. Brown garante que o músico é rápido e certeiro nas rimas. No Engenho Maranguape muitos já conhecem seu estilo, de misturar histórias, de Bíblia, violência das ruas, por aí. "Todos fazem uma crítica, à sua maneira, têm a resistência como lema e optam pelo modelo tradicional do hip hop, que são as vozes e as bases pré-gravadas. Mas no disco vou fazer a direção musical e vai ter muita coisa tocada, baixo, bateria, ritmos. Isso vai possibilitarabrir a mente deles", conta Zé Brown.
Guerreiros da RuaO letrista Nielson chegou a gravar uma coletânea, na Itália, quando lá esteve com o projeto social Pé no Chão, que trabalha com jovens de comunidades do bairro de Santo Amaro. Nielson é um desses meninos. O disco gravado no estrangeiro não repercutiu aqui e muitas vezes ele pensou em desistir. O projeto de Zé Brown renovou as expectativas com sua banda, Guerreiros de Rua, formada com o parceiro Luis Ricardo. "Mudar a molecada da comunidade" é uma frase constante do garoto, que sempre fala em envolver outros jovens de sua idade, que podem se "salvar" através da música. A banda Guerreiros de Rua não tem CD, mas tem uma demo que circula entre turmas de alguns bairros: Arruda, Chão de Estrela, Campina do Barreto, Ilha de Deus e San Martim. Os shows são poucos, mas sempre aparecem. Nielson acredita que o meio do hip hop, mesmo quando não traz retorno comercial, contribui para a comunicação das pessoas. "Antes não saía de dentro da comunidade para buscar informação e poder absorver, para repassar. Hoje nós estamos sendo reconhecidos nessas comunidades aí", diz.
M.C. BanzaiO hip hop de Banzai surgiu como o da maioria que adota o estilo: nas ruas do centro da cidade. "É a (forma de) resistência dos irmãos da periferia, que preferem uma atividade fora do seu local para não se envolver no tráfico", diz. Banzai mora na comunidade do Bode (Pina), tem 35 anos e ganha a vida como marceneiro em um pequeno negócio do seu pai. Começou a compor em 1992, quando ninguém no Recife sabia direito o que era hip hop. "Fui da banda do finado Malakai, que morreu da violência. Pensei em desistir, mas voltei e fiz um single com cinco músicas, mas só rola nas mãos da galera", diz o b.boy (dançarino de break) e rapper (fazedor de rimas). Zé Brown conta que Banzai é um dos primeiros ativistas do hip hop recifense, mas que, por falta de apoio, passou muito tempo cantando músicas antigas. O projeto da coletânea o está incentivando a compor coisas novas. "O trabalho é em cima do cotidiano, da realidade da periferia. O Pina é violento, mas meu trabalho é apontar saídas, fazer revolução por meio das palavras". O músico se considera de uma geração de "finados", de jovens que foram presos ou desistiram de lutar. "Era uma época em que informação era difícil" recorda. Agora as novidades são mais frequentes. "Estou sempre compondo, ouvindo um som. Estou num momento de incubadora", define.
Jr. M.CJr. MC é uma das expectativas de Zé Brown com o projeto Apresenta Talentos. O M.C (sigla comum no rap, significa "mestre de cerimônias") tocou recentemente em alguns mutirões de grafite realizados pelo Coletivo Êxito de Rua. Está tentando se reestabelecer, através do que gosta e sabe fazer: música. Mas nem sempre foi assim. Dos 13 anos 16 anos esteve envolvido com o tráfico e cumpriu medidas sócio-educativas na Fundac. Foi lá que começou a escrever. "Nada ocorre por acaso. As coisas que acontecem são determinadas por Deus, passar por isso, minha música fala dessa trajetória", conta. Julgamento social é uma delas (conta o perrengue que o menino passou no período da detenção). Rolê na Sexta-feira é outra letra. Relata que não só de recordações duras vive um compositor de rap. Júnior diz que abandono e falta de oportunidade foram a receita para sua ignorância. Hoje vive de "correrias": lava carro, pinta parede, o que aparecer. O hip hop é sempre um sonho, às vezes distante e outras vezes bem perto (comoquando está ao lado de um grupo, num projeto coletivo). O hip hop é uma forma de comunicação alternativa. Mesmo que nunca traga dinheiro, ou sucesso, já é uma realidade. "Eu faço o que faço, tenho meus valores, meus objetivos. Sei o que quero atingir", afirma.
YabasYabá é um termo iorubá que significa Mãe Rainha. No Brasil, serve para designar os orixás femininos de modo geral. Yabas foi o nome escolhido por três amigas para uma banda de rap feminino. Elas se conheceram durante as oficinas do curso Desenhando Culturas (do Governo do Estado, dentro do programa Pacto Pela Vida). Foi lá que fizeram a primeira músicas juntas e permaneceram com a ideia de produzir e subir num palco para cantar. Ana Karina, 20, Roseane Amorim, 19, e Rafaele, 17, estudam e pretendem, as três, fazer faculdade de cinema de animação. "Fizemos uma animação sobre as mulheres de Tejucupapo e uma sobre J. Borges, que foi premiada", conta Roseane. O cinema, as ruas e o universo feminino compõem a temática principal delas, que se reúnem nos fins de semana. Zé Brown gosta do que elas escrevem e diz que são "da nova escola do hip hop".
Fonte: Diário de Pernambuco